GDV

Grupo de Desenho de Viseu

-Museu Grão Vasco-

fevereiro 15, 2007

José, Pessoa

Aqui se publica o texto/desafio de Miguel Horta para a exposição de José Pessoa, "Luzes da pedra". Na sequência desta exposição foram organizadas visitas mediadas, dedicadas às crianças de Viseu. Um conceito de Susana Tavares, Miguel Horta e Joana Macedo.
...Fica para a história.

José, Pessoa

O grande problema de José era ser grande, uma grande pessoa. Não só na dimensão mas também na maneira de olhar o mundo. Sempre com um olhar de pequena grande pessoa, com atenção, não perdia nenhum pormenor daquilo que via.
Ele sabia que existia uma grande diferença entre olhar e ver. Sabia quando os crescidos se tinham esquecido de reparar numa coisa pequenina e continuavam naquela conversa distraída que só os adultos sabem fazer sobre coisa nenhuma.
Muitas vezes ouvia coisas do género:
- Passaste por mim no Rossio, olhaste mas não me viste.
Esta pequena distracção queria dizer uma grande coisa. Não podemos andar na vida com olhares distraídos, arriscamo-nos a não ver nada do que de importante anda escondido por aí.
Resolveu, então, dedicar a sua vida às coisas que não se vêem num primeiro olhar.
Uma pedra bonita, logo guardava no bolso. Um ramo geado pelo frio da manhã: bolso! Uma concha na beira do mar: bolso!
Claro que a mãe começou a protestar, pois os bolsos das calças do José andavam todos rotos à força de tanto recolher pequenos objectos, verdadeiramente importantes, para os levar para casa.
A coisa começou a ficar mais complicada quando o nosso amigo ficou interessado num detalhe escondido de uma escultura que ele vira num museu da cidade. Não podia levar a escultura inteira para a sua casa. Uma escultura não cabe no bolso…
Lembrou-se então do tio Gabriel que tinha a mania de fotografar todos os acontecimentos da família numa insistência habitualmente muito chata:
- Ponham-se todos ali! Então…sorriam. Não se mexam. Olha o passarinho. Põe-te assim ao lado da tia, mas ri, ficas mais laroca. Sempre de volta de nós com o flash a lampejar. Tchac! Tchac! Flash!
Mas aquela ferramenta era algo de muito útil para guardar esses detalhes do mundo.
Podia guardar num pedacinho de papel fotográfico todas as coisas interessantes a que os outros não dão importância.
Com o tempo, José tornou-se numa pessoa ainda maior e o seu apetite pelas imagens cresceu com ele.
Aprendeu a gostar das pedras e das histórias que elas têm para nos contar. Falava com as esculturas antes de as guardar numa máquina, um pouco melhor que à do tio Gabriel. Passava mais tempo a olhar e a ver aquilo que tinha para fotografar do que a disparar a máquina. Sabia, agora, conversar com as pedras, revelando com a luz dos projectores as histórias escondidas nos pequenos detalhes, só visíveis aos mais atentos. Nas fotografias que tirava mostravam-se as vidas de pessoas parecidas com ele que tinham ficado perdidas lá longe no tempo.


Miguel Horta
Dezembro 2004